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Saturday, November 15, 2014

...

Não me consigo lembrar da tua cara. Fecho os olhos. Vejo-nos. Mas não me recordo da tua cara. E não é de hoje nem de ontem. 
Vejo-te chegar pela primeira vez. A tua roupa, o teu cabelo. Os sapatos. Mas falta-me a expressão. O som da tua voz. E ao contrário do que possas pensar, eu quero mesmo recordar. 
O primeiro beijo. Lembras-te do primeiro beijo? Estou seguro de que tinha os olhos fechados, mas juraria ser capaz de ver cada contorno do teu rosto. Mas não sou.
É como um soco no estômago. Ou o doce sabor de teres sido apenas alguém.
O teu abraço está mais presente do que nunca, mas falta-me o rosto. A voz.
E por mais que me esforce, não sou capaz.
Ajudas-me?

Sunday, May 04, 2014

...

Depois de ti foi sempre nada. Eu quis. Eu tentei. Mas o que eu tive contigo foi sempre mais forte que tudo o resto. 
Não te quero mais. Nunca mais. E no entanto continuas aqui. Punes-me com a tua presença. Com a minha incapacidade de transpor os limites que me impus. Porque tu mudaste tudo e eu continuo a não me sentir preparado para mudar tudo novamente.
Mas desta vez será diferente... Ouviste?

Thursday, March 20, 2014

"Why the fuck...?!" - the fictional side

A nossa música nunca deixou de tocar. Aquela que ouvíamos, mãos dadas no trânsito. Batíamos asas e voávamos porque amanhã podíamos ser demasiado velhos e a criança que persistia em nós talvez viesse a ter saudades. Nenhum de nós quis nem por uma vez saber o que é ter saudades. E hoje, sempre que a névoa se levanta, é tudo o que sinto. Saudades. Não de ti, mas de nós.
Foda-se, tenho mesmo saudades...

Sunday, March 09, 2014

...

Porque sim. À falta de explicação melhor, porque sim. As palavras escasseiam e eu nada tenho para te dizer. Bem sei que isso não te satisfaz mas eu honro as minhas promessas. Honestidade. Eu honro sempre as minhas promessas. E talvez por isso nada tenha para te dizer. Porque te disse tudo. Quando te atirei ao chão com a brutalidade do verbo. O início. No início, eu a disparar. Tu, a bala a entrar-te estômago adentro, a perfurar-te, tu a caíres, incrédulo no chão. 
Nem tu sabes como eu fui capaz, pois não?
Eu digo-te. 
Um dia, acordei. Olhei para o lado. Pensei. Nesse momento, nesse preciso momento, nada mais podias. Nunca mais pudeste. 
No início, o embate pode ter sido pesado. Mas a incerteza foi-te sempre pior. E ficaste. Foste ficando. 
Olhar-te aí agora, estendido, devia ser sinal de liberdade. A verdade, agora sinto-me eu no início. A bala a entrar-me estômago adentro... No chão.
Ensinas-me a levantar-te?

Sunday, March 02, 2014

Por favor

Depressa. Se me vais matar, mata-me depressa. Não te ponhas aí com falinhas mansas. Rodeios e mais rodeios atrás de rodeios. Estou aqui. De joelhos. Corta-me a cabeça e já está. Um só golpe. Seco. Rápido. Eficaz. Sentes-te capaz desse breve momento de altruísmo? Ou perpetuarás essa tua necessidade sádica que não te deixa libertares-me? 
Não sei como chegámos aqui. Não sei como deixei que tomasses tamanho controlo. Que até a morte está nas tuas mãos. 
Dizias-te diferente. E eu, ingénuo, acreditei. Dizias-te capaz de me fazer feliz. E eu, ingénuo, acreditei. Que só nós importávamos e que seria assim para sempre. Para sempre. E eu, que nunca acreditei na eternidade, ingénuo,... 
Acreditei. Acreditei que eras diferente, que me farias feliz, que só nós importávamos e que seria assim, para sempre. E assim foi até que outros vieram. Entraram de rompante pela vida que era minha e fizeram-te querer ser diferente com eles. 
Antes de ti, já me teria ido embora. Voltado as costas e ido embora. 
Compreendes o desespero em que me encontro? Aqui, de joelhos, à espera que desfiras o golpe fatal. Porque não me consigo levantar, voltar-te costas e ir-me embora. Dizem-me que sou mais importante. Mas nada é mais importante que tu e eu tornei-me num mero objecto. 
Que usas e manipulas a teu belo prazer quando os outros te cansam. Voltas e revoltas. Revoltas-me mas nem isso é suficiente. 
Vá lá, depressa. Mata-me depressa e vai-te embora. Deixa-me. E deixa-me continuar. Seguir-te. Prosseguir-te. Imploro-te. Não é que eu te ame. Não é sequer que eu goste de ti. Mas deixei-te o controlo e só não sei como o recuperar. 
Desabituei-me de mim e só não sei como me desabituar de ti. Do teu toque, do teu sabor e do teu cheiro. Anulaste-me. Por favor, elimina-me. Da tua vida, da vida que já não é nossa. Vai ser diferente com outro. 
Se nunca te pedi nada, peço-te. 
Por favor. Depressa.

Monday, August 13, 2012

preso


Abri-te a porta, a medo. Sentei-me e fiquei a observar. Entraste mesmo sem convite. Sabias que nunca te diria para o fazeres. Sabias que estava longe do meu pensamento, do meu sentimento. Sabias que tudo faria para te parar. Por isso entraste sem convite como que firmando a tua convicção de que nada te impediria. E eu que luto com todas as minhas forças, abro-te a porta, a medo. Sento-me a observar-te entrar sem convite. Ou terei sido eu a convidar-te mesmo que as palavras não tenham sido audíveis? Serás tu capaz de tamanha façanha? A dança que se seguiu não foi bonita de se ver. Cortejaste-me como se o dia fosse o último. Sem fechares a porta. Cortejaste-me como se tudo o que quisesses dizer se resumisse em três pequenas palavras. De mais ninguém. Cortejaste-me sem fechar a porta, aquela que usaste para entrar. Para sair. Ainda me cortejavas quando saíste. Sentado, observava-te, sem convite. Pela porta, aberta a medo, que eu não sei fechar.

Sunday, March 11, 2012

...

Trinquei-o. Sofregamente. Devia saber doce mas não estava certo. O recheio. Penso que a dúvida residia no recheio. Porque os sonhos devorados confundem-se com descargas hormonais nem sempre prazerosas. Necessárias, mas nem sempre prazerosas. Que te passou pela cabeça para me ofereceres um bolo cheio se sonhos?! Ainda assim, trinquei-o sofregamente. Mesmo depois de me consciencializar que não havia ali a doçura que imaginara. Que me fez salivar quando o trazias, pousado em ambas as mãos, e mo oferecias, sorriso de orelha a orelha "Toma. Fi-lo para ti.". Gravaste aquele momento na minha memória. Gravaste muitos outros mas mais nenhum me persegue. Gravaste na minha memória o teu semblante de felicidade angelical, a voz perfeitamente colocada para transmitir uma candura que não te conhecia, sorriso de orelha a orelha. Um milésimo de segundo. É tanto quanto preciso de me demorar na memória daquele momento para que uma lágrima escorra pelo rosto, mais enrugado. E depois outra. E outra. E mais outra. E depois outra. E outra. E outra mais, misturando-se com a falta de doçura daquele bolo recheado com todos os sonhos. E eu a trincá-lo sofregamente sem conseguir parar. E as lágrimas compassadas. No tempo certo. Incapazes de serem mais fortes que a minha sofreguidão. Sorriso de orelha a orelha. Uma candura que não te conhecia. O teu semblante de felicidade angelical, a voz perfeitamente colocada "Espero que gostes.". Ofereceste-mo, pousado em ambas as mãos, recheado com todos os meus sonhos, trincado, sofregamente, a não saber doce, como se de uma descarga hormonal nem sempre prazerosa se tratasse. Os meus sonhos. Todos os meus sonhos.

Wednesday, February 15, 2012

Assim.


Quando chegas, trazes contigo algo que desconheço. Almas de outros tempos entranhadas no corpo. Bem rente ao osso como se pertencessem ao esqueleto que te sustenta.
Olhas-me. Não nos olhos. Enquanto te chegas cada vez mais perto. Pé ante pé. Uma mão depois da outra.
Sinto-te para lá da distância que nos separa. E que tu transpões como se de uma insignificância se tratasse.
Chegas e apertas-me forte combatendo o discernimento que te impele a fugir de mim. Como se trocássemos de papéis. Predador. Vítima.
Vítima. Predador. Os teus teus atrás. Ou à frente. Não me apercebo. Desconheço se é de facto a minha pessoa que tu olhas. Se também eu trago outros atrás ou à frente e se é a esses que tu queres chegar. Pé ante pé. Uma mão depois da outra.
Chegas e sussurro-te “Tu és pelo mal...”
Chegas e gritas-te “Tu és pelo mal!”
Enquanto me agarras as mãos para não me escapares.
Assim.
Sempre.

Wednesday, November 09, 2011

Re

Recomeçar. Reinventar. Re...
Novo. Novamente. De novo...
O imperativo dos nossos dias que nos ataca a cada minuto.
Há sempre um qualquer “re” um qualquer “de novo” ao virar da esquina,
na ombreira da porta,
sentado no sofá.
Por vezes são microscópicos e não os vemos, mas eles estão lá.
A chamar, a clamar por nós.
Por vezes não os queremos ver, ignoramo-los ou tentamos.
Mas eles aparecem sempre.
Seringas que nos injectam com a agri-doce mudança.
A louca,
a malévola,
a terrífica mudança.
Mudar...

Monday, November 07, 2011

...

Ontem falavas em regressar. Não sabias para onde nem para o quê, mas querias regressar. Dizias que te sentias incapaz de cumprir aquela promessa. Olhavas para o relógio como se cada segundo fosse menos um pedaço de tempo que tinhas. E olhavas desenfreadamente.
Não tentei sequer questionar-te sobre que promessa era essa que te enlouquecia. Não te deixa continuar.
«Posso ajudar?», pergunto.
Queria compreender. Tento, mas não consegui. Parecia-me simplesmente que querias voltar a um lugar ao qual nunca chegaste.
Quero, mas o teu olhar centrado no relógio que não pára dizia-me apenas que só tu lá podes chegar.
Deixa o relógio, regressa. Mas volta depressa.
Enquanto a pilha durar, o tempo não vai parar.

Sunday, October 30, 2011

Techicolor VIII

"A ironia da perfeição é que cada vez que a almejamos há um inexplicável, um imponderável, um inesperado que tudo transforma."

Saturday, October 01, 2011

...

Os dias confundem-se entre a bruma dos sentidos. Passam com olhar a mel e entrelaçam-se em sabor a rosas. Perdem-se numa gota vermelha derramada com dor e ardor, com belo e um cheiro a amargura. 
Os dias não trazem consigo a crueldade do tempo. Apreendem-no em lugares acessíveis apenas à sensibilidade do que se esconde, do que se esquece. Cruel!
E o que se lembra..., ainda que involuntariamente empurrado pela voluntariedade do azedo, aquele incontrolável que a medicação atenua apenas até ao bater de um desgosto demasiado de um acre imbatível. 
Um entrelaçado de impronunciáveis. Gritos silenciosos, balelas repetidas em poemas de tempos a tempos musicados.
Catarse. Silenciada. Igualmente gritada.

Sunday, May 01, 2011

Lisboa

Lisboa. Não uma cidade de amores. Uma cidade de paixões loucas. Onde o ar é rarefeito. Onde se sufoca de cada vez que se vê o rio. Inspira-se fundo. Abre-se bem o peito, estende-se os alvéolos para conseguir resgatar mais ar. E não se expira. Nunca se expira. Sufoca-se pelo excesso, mesmo que não seja uma cidade de excessos como Paris, Nova Iorque ou Londres.

Thursday, April 21, 2011

Atravessar

E se a magia te falhar, encontra-me do outro lado do rio. Não sabes como lá chegar? Confia que a ponte é certa, que viras para o lado correcto e põe-te a caminho.
Pressentes que serão dias a fio sem comer, sem dormir, com a respiração presa à necessidade de descobrir? Talvez.
Posso apenas dizer-te que faltará sempre pouco. Por muito que pareça, faltará sempre pouco. A passagem estará já ali na próxima árvore. Não a vês?
Só aceito respostas afirmativas.
Queres ao menos vê-la? Não me sabes responder?
Returco que tudo está explicado. Não compreendes? Pensa em mim, pensa porque me queres, para que me queres. Se te cansares, senta-te junto da próxima árvore.
Nessa mesmo.
Nessa aí.
Nessa onde a ponte está. Senta-te e acredita.
Senta-te, acredita, olha em frente, encontra-me do outro lado do rio.

Wednesday, February 23, 2011

"Algo"

Estava aqui a procurar algo e descobri este "Algo".

Descia as escadas sem saber porque o fazia. À medida que ia pisando os degraus, sentia o teu cheiro invadir o meu corpo. Por momentos, desejei poder aprisionar a pequenez daquele meu pensamento na minha língua. Desejo não ter dito o que disse quando irrompeste escada acima para me abraçar. Subias feliz. Eu não te queria feliz. É fodido quando não desejamos a felicidade para aqueles que amamos. Não. Eu sempre te desejei feliz. Mas não ali. Não naquela altura em que ainda te debatias com o passado. Temia que a tua felicidade te pudesse afastar de mim. Que fosse apenas uma máscara, uma capa, poeira varrida para baixo da cama que um dia insistiria em ser limpa. Temia que esse dia te separasse de mim. Medo tolo de quem não queria ser obrigado conceder a liberdade que a tua felicidade te impelia a perseguir. Medo tolo de quem nunca acreditou estar ao teu nível. Medo tolo dos não crentes. O meu maior problema é não ter uma religião. A religião obriga-nos a acreditar. Eu não acredito em nada. Antes de ti, não acreditei em ninguém. Não que tu o sintas, mas eu acreditei em ti. Sempre. Subias, feliz, enquanto eu gritava escada abaixo "Tens de conseguir!". Mantiveste o teu sorriso durante o meu chorrilho de idiotices. Como eu desejo ter aprisionado a pequenez deste meu pensamento na minha língua e não ter dito o que disse quando irrompeste escada acima para me abraçar, feliz, eu fodido por te amar e não te desejar feliz.

Data do dia 23/12/2008 e não me lembro de alguma vez o ter colocado aqui. Velhinho, velhinho. Acho que hoje muita coisa seria diferente.

Mas são as marcas d(n)o tempo!

Sunday, February 20, 2011

Morrer

Insistes sempre em estar aí. Em estar onde não devias estar.
Devias estar à distância do meu olhar. À distância de uma conversa não falada. Quando estás aí não consigo comunicar contigo. Não consigo saber se estás. Mesmo que sinta a tua presença
Pode ser a presença de outra pessoa qualquer.
Devias estar à distância do meu toque. À distância de uma agressão física. Encolhes-te como um pequeno animal indefeso. Sei que invado o teu espaço de cada vez que te toco. Mas só quando te toco te consigo aprender na totalidade. Sentir as cicatrizes que não queres que ninguém perceba que existem. Aquelas profundas, entranhadas na tua pele, quase perfeitas ao ponto de ninguém reparar nelas. Toco-te na face enquanto tentas desviar o olhar e nessa fracção de segundos
As tuas cicatrizes são minhas.
Não me abras a porta. Vamos ser Romeu e Julieta. Atira-me o teu lençol em corda para que possa trepar de forma incógnita pela janela. E quando te dobrares para me ajudar a ultrapassar o último obstáculo
Roubo-te um beijo. E se a emoção for mais forte. E se a lei da gravidade agir contra nós. E se pararmos de fazer força naquele pequeno momento em que olhar e toque se entrelaçam
Eu fico por baixo para que te doa menos. Serei o colchão que nunca tiveste. Serei a almofada que se confunde com a parede mas que está sempre lá.
À distância de um beijo.
Não fujas. Deixa-me entranhar-te o único veneno que nos transforma em fénix. Não fujas.
Devias estar ali. Não me perguntes onde. Ali.

Wednesday, February 16, 2011

Eu não sei bem como explicar que alguma coisa vai começar...

Agarras-me a cada saída o coração com os dentes numa tentativa aparentemente desesperada de me dolorosamente triturar. E tudo estaria bem não fosse os pedaços que vais deixando se sobreporem à razão que os outros me tentam impor de cada vez que entras. Entras e sais como se fôssemos sequer conhecidos. Mas a este ritmo o coração não é eterno e tu também não.

Saturday, February 12, 2011

Viagens

Sinto-te como se nunca tivesses desaparecido. Sinto-te aqui, comigo. Em todas as decisões que realmente importam. Sinto-te.
Se dissesse isto em voz alta, julgar-me-ia louco. Mas dito assim, marcas no papel, soa menos mal.
A porta que não fechaste continua aberta esperando o teu regresso. Porque é que não fechaste a porta? Porque é que não levaste a chave e não a trancaste para que mais ninguém pudesse entrar? E têm sido várias as pessoas que vão entrando. E saindo. E todas elas deixam a porta aberta, inconscientes do que isso significa, inconscientes da felicidade que nos acompanhou. Quase sempre.
Nunca te tento substituir. Não podemos substituir quem nos viu crescer. Quem nos fez crescer.
Quando me deito. Todas as noites. Sussurro-te ao ouvido. Um som quase inaudível até para mim. Como se os lábios se limitassem a mexer com medo que alguém possa escutar as nossas conversas. Sinto as tuas respostas como se elas fossem de facto materiais.
De todos, só tu não me julgas. Nunca me julgas. Mesmo quando não concordas. Falas comigo, tentas levar-me até à tua perspectiva. Não me julgas. Não gritas. Não berras. Não levantas sequer a voz para fazer valer o teu ponto de vista. Explicas-me como se eu tivesse de novo 3 anos e quisesse ver a cidade lá em baixo. Agarras-me por trás. Dizes-me que não me posso empoleirar na tua grande janela. Que posso cair. E que cair pode ser o fim quando o cume é alto.
Dize-lo da mesma forma que me ajudas a levantar quando corro pelo jardim. Caio. Esfolo os joelhos. Já passou. Passas-me a mão pelo cabelo. Ensinas-me que cair também pode ser aprender. Aprender a não correr tão depressa. A olhar para os obstáculos. Ou simplesmente a levantar-me. A agarrar na tua mão para me levantar. Ensinas-me a fazer tudo sozinho sem nunca deixares de estar ao meu lado. Sem nunca esconderes a mão que pode tornar tudo mais fácil. Não porque não seja capaz, mas porque contigo tudo é mais fácil.
Recordo com os dias melhores em que tudo era fácil. Recordo que eram fáceis também porque tu os tornavas fáceis.
Não me sei a pessoa que querias que fosse. Mas procuro-a todos os dias. Procuro-a na perfeição que me ensinaste a desejar. Procuro-a nos valores que me ensinaste a perseguir. Não me sei não por achar que não a sou mas por desejar ser sempre melhor. Melhor Filho. Melhor Amigo. Melhor Homem. Melhor. Ensinaste-me a querer ser sempre melhor. E não me julgas quando o passo é para trás.
Se hoje estou aqui, a ti to devo. Pelas longas horas. Pelos passeios. Pelo prazer de abrir um livro acabado de comprar. Pelo prazer do cheiro que nos inunda ao abrir um livro acabado de comprar. Encontro-te a cada letra que escrevinho. Somos o triângulo perfeito. A santíssima trindade com vida pagã. Um bom vinho. Um bom cigarro. Um bom exercício literário. E em cada uma destas viagens o objectivo é apenas um. Melhor.
Sinto-te aqui comigo neste momento como em todos os outros. Sempre que defendo aquilo em que acredito. Mesmo que tu não acredites. Não me escondes a mão que me pode ajudar a levantar se a queda for pequena. E se olhar bem, posso ver que ambas estão em posição de me agarrar se a queda for demasiado alta. Se vislumbrares que o salto pode ser o fim.
De olhos bem abertos, vejo-te. De olhos bem abertos, acredito que os dias que dentro em pouco amanheceram podem ser ainda melhores.

Sunday, January 30, 2011

Labirinto

A felicidade é um lugar estranho. Um lugar muitas vezes incógnito. Um lugar que por vezes só se deixa revelar à saída. Um labirinto. Damos voltas e voltas e voltas e só quando de lá saímos nos apercebemos do caminho percorrido. A felicidade é um lugar estranho que dificilmente se deixa apreender. Olho-te e não te sei dizer se és feliz. Nem consigo perceber se tu próprio o saberás. Olho-te e desejo que fiques para sempre preso no labirinto. Receio que se algum dia saíres, não voltes.
Sinto o pensamento, o coração toldado por esta necessidade de te ter feliz. Ainda que tenhas de não te saber feliz para que o sejas. Sinto-me toldado por não saber ser assim. Por não me saber assim. Sempre me desejei no limite. Contentar-me com esta mediocridade faz-me infeliz. Não podemos discutir? Fazer-te colocar um pé de fora e rapidamente fazer com que novamente te percas por entre as sebes? Não! Eu sei.
Eu sei que a felicidade é um lugar estranho.

Sunday, December 26, 2010

Techicolor VII

ANDREIA
“Le coeur a ses raisons que la raison ne connaît point”, repito.

DANIEL
Não percebo onde queres chegar.

ANDREIA
Que tem isto de construção? O coração não é uma construção, é Natur. A construção leva-nos sempre ao preto ou ao branco. Não nos permite viver os cinzentos.

DANIEL
Então e a pintura, a escultura, a literatura não são uma construção?

ANDREIA
Depende!...

DANIEL
Pensei que fossem uma expressão dos sentimentos. Pensei que era isso que tu fazias, expressar os teus sentimentos.

ANDREIA
Também podem ser.

DANIEL
Para ti o que são então?

ANDREIA
Depende.

DANIEL
Depende do quê?

ANDREIA
De como as produzes.

DANIEL
E como é que tu escreves?