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Saturday, June 19, 2010

Fado

Deixou-se levar pela folha em branco. Não, corrigiu. Pela necessidade de pintar a folha em branco. Esvaziar aquele espaço cheio de nada. Colori-lo. Dar-lhe uma nova cor. Irregular. O preto a sobrepor o branco de forma pouco articulada. Claramente desalinhada, geometricamente pouco reconhecível.
Pensou nos tempos que a pontuação lhe permitia escrever. Em como as vírgulas tornavam a leitura toda mais acelerada. E os pontos finais num novo cabo das tormentas que se erguia para fazer com que o leitor se demorasse no trilho das palavras. E a falta de pontuação? Seria possível dissertar sem pontuação? Uma verborreia de pensamentos desalinhados e desenquadrados de qualquer realidade pois dificilmente seriam apreendidos por uma terceira pessoa que não ele próprio enquanto escritor e com alguma dificuldade pelo seu alter-ego de leitor. Experimentou… ainda… as… reticências… esse sinal… que permite prolongar… a vida… transformando-a numa dura… e longa… penosa… caminhada… tal como o Homem… aquele com quem se cruza… diariamente… e que… já com dificuldade… ainda… vai… comprar o seu… próprio… pão… à padaria.
Rapidamente regressou aos pontos finais. Às frases. Por vezes apenas com uma ou duas palavras. Paradas a meio. Detestava aquela escrita que parecia não querer avançar. Ainda assim, era aquela na qual se sentia mais confortável. Convencido de que o domínio da gramática lhe permitia abusar de forma perceptível da pontuação.
Chegou a meio do que queria escrever naquela página em branco. Não a meio da página, porque essa, com aquela escrita tremendamente desalinhada, estava praticamente preenchida.
Não terminaria o pensamento. Não diria tudo o que planeara.
E, no fim, quase no fim, sentiu saudades da pureza do branco. Agarrou numa tinta, fina, e preencheu de novo a folha. Mas os vincos, as marcas deixadas pela força da caneta no papel não desapareceram. Nunca desaparecem.

Sunday, April 25, 2010

Sunday, March 28, 2010

...


Quando me fazes mais falta vou à praia. Sento-me numa qualquer pedra e deixo-me ficar a observar as gaivotas. Sigo-lhes o rasto enquanto pairam por ali, até voarem para longe. Faz-me recordar. É como se, nos momentos em que elas pairam, tu estivesses ali, junto a mim. Nos dias de sorte, há uma que se chega mais perto. Pousa na pedra onde me sento. Fita-me até um de nós baixar a cabeça em sinal de consentimento com algo que ambos desconhecemos. E depois voa. Para longe. De mim.
Quando me fazes mais falta percorro o tempo, as memórias. Agarro naquela mesma concha que ainda faz de amuleto às minhas viagens. A esta distância pode parecer irreal, ridículo ou uma mera superstição, mas é como se me protegesse. É como se te sentasses no lugar do pendura e aquela chapa se tornasse invencível, intransponível. Como se nada nos pudesse atacar. Agarro a concha, fecho os olhos, perco-me.
Quando me fazes mais falta vou buscar o papel, a caneta. Caneta na mão em contacto com o papel, a libertar-se. Deixo-a tomar conta da minha mão, do meu cérebro, dos meus pensamentos. Perco-me em mim. Comigo. Até que amanhã seja hoje, hoje seja ontem e a certeza do movimento constante se volte a apoderar do meu ser.

Thursday, February 18, 2010

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"E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

(Miguel Sousa Tavares)

Wednesday, December 30, 2009

OST

Gosto sempre de encontrar músicas que podiam acompanhar coisas que escrevo ou já escrevi.

Anteontem andei a reler algumas coisas e (re)descobri isto. E ontem descobri a música aqui em baixo. Ora carreguem lá no link e no play...

Sunday, November 01, 2009

...

You know you've reached the end when all you can think of is "No..." Ridículo!

Sunday, October 25, 2009

Final de tarde... II

E também me lembrei disto:

Kosketa minua
Älä käsilläsi
Vaan niin että tunnen sinut
Halaa minua
Älä käsilläsi
Mutta sielussasi
Minä kaipaan eskimo-ystävääni

Damien Rice

Final de tarde...



E lembrei-me disto.

Friday, April 17, 2009

Um diálogo com a Morte

Este foi o primeiro título que me veio à cabeça. É raro começar a escrever pelo título. É como se o início só se revelasse verdadeiramente no fim. E mesmo assim tenho dúvidas. Não sei se estas são as palavras mais certas para começar. Porque não sei se é um diálogo. Porque não sei se é a Morte. Porque não sei se o que está em causa é o confronto connosco.

“Nému dormia, uma mão metida entre a cara e a almofada, nu, viajando pelo desmesurado espaço dalgum sonho de onde, certamente, Beno fora excluído. E, por instantes, este sentiu ciúmes por não poder estar dentro do sonho de Nému.
Mas com o decorrer dos meses, Beno viria a aprender que é muito difícil dormir com alguém, ser cúmplice desse abandono, dessa ausência a dois, do que fornicar.
E ambos foram aprendendo a dormir um com o outro, e Beno deixara de ter ciúmes dos sonhos de Nému.
«Fornicar - pensava Beno -, fornica-se com quem quer que seja ou quem seduzimos e desejamos. Mas dormir, dormir é muito mais complicado, leva tempo até se perder o medo de se entregar o corpo, assim...ao outro. E a lassidão dos corpos abandonados aos segredos do sono um do outro...é bela!»” (Al Berto in Lunário

Há coisas que me são difíceis de catalogar. O filme da minha vida. A música da minha vida. O livro da minha vida. Gosto do que é cru. Gosto de tudo aquilo que foge aos floreados com que gostamos de pintar as coisas não bonitas. Gosto do cru das palavras, nuas e despidas de metáforas e segundos sentidos. Gosto quando chamam as coisas pelos nomes sem ter medo de lhes chamar. Medo… Um diálogo com o Medo.

“… Os personagens que hoje habitam a cena são outros tantos tu(s) e eu(s) que se servem da tua poesia para exercitar a aproximação à NOITE de cada um de nós. Roubei-te as palavras. Será o teatro capaz de apaziguar o medo do escuro?

João Brites
Palmela, 20 de Fevereiro de 2009”

A Noite até 26 de Abril aqui.

Thursday, March 19, 2009

Baú de Memórias

Hum... Porque recordar é bom, porque recordar nos leva a novos lugares, porque há coisas que são eternas, porque nunca deixarão de ser. Isto é eterno.