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Sunday, December 26, 2010

Techicolor VII

ANDREIA
“Le coeur a ses raisons que la raison ne connaît point”, repito.

DANIEL
Não percebo onde queres chegar.

ANDREIA
Que tem isto de construção? O coração não é uma construção, é Natur. A construção leva-nos sempre ao preto ou ao branco. Não nos permite viver os cinzentos.

DANIEL
Então e a pintura, a escultura, a literatura não são uma construção?

ANDREIA
Depende!...

DANIEL
Pensei que fossem uma expressão dos sentimentos. Pensei que era isso que tu fazias, expressar os teus sentimentos.

ANDREIA
Também podem ser.

DANIEL
Para ti o que são então?

ANDREIA
Depende.

DANIEL
Depende do quê?

ANDREIA
De como as produzes.

DANIEL
E como é que tu escreves?

Sunday, December 06, 2009

Technicolor VI

There was this time when nothing mattered because everything was forever and ever.

Ce temps là est fini...

Thursday, May 21, 2009

Free

Muitos e muitos meses depois, actualizei ali a barrita do lado. Mudei a música porque estou completamente in "Technicolor" e porque o David Bowie diz tudo (o vídeo é péssimo, eu sei):

Fear is just in your head
Only in your head
Fear is in your head
Only in your head
So forget your head
And you'll be

FREEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE


Mas não queria deixar de me despedir do adeus que também é tão caro ao "Technicolor" e, duma forma geral, a muito do que escrevo.

Aqui fica, para a posteridade, o vídeo e as palavras do Eugénio de Andrade.


Simone de Oliveira e Vitor de Sousa - Adeus (Palavras Gastas)

Wednesday, May 13, 2009

Saudade II

"Saudade? Finalmente sabia o que efectivamente significava aquela palavra. Finalmente sabia o que era conduzir numa interminável recta inclinada no sentido descendente o carro sem travões do sofrimento por não ter alguém, mesmo que estivesse separado daquela pessoa apenas por algumas estações de metro, pela distância do gesto de uma mão ou da força mental de um pensamento. Saudade. Aquele sentimento interminável que sentimenos mesmo quando as pessoas se encontram dentro de nós, podemos fechar os olhos e vê-las, ouvi-las e com um pouco mais de concentração, senti-las.

(...)

Saudade. Aquele sentimento que não existe em mais nenhuma língua a não ser no idioma que Daniel lhe ensinara. Saudade. Aquele sentimento que pré-existe à lembrança após o esquecimento. Saudade. Aquele sentimento que antes de ser, já o é."


in Technicolor

Thursday, May 07, 2009

Technicolor V

"Os portugueses, fatídicos como são, sofrem antes de terem de o sentir."

Tuesday, April 28, 2009

Technicolor IV

VII

(Andreia volta-se para o quadro.)

É como no quadro. Aquele que eu colei no espelho. Aquele que te prendeu, que te fascinou. Conseguiste ver, não conseguiste? 

(Daniel começa a andar dum lado para o outro.)

O Preto. O Branco. As cores a misturarem-se à medida que os teus olhos vão ficando mais cansados, que a tua mente, paralisada, deixa de actuar. Que o coração internaliza a emoção da dualidade, matando-a. O Preto e o Branco a misturarem-se dentro de ti e a devolverem-te o cinzento. A iludirem os teus sentidos, a tua visão, o teu cérebro.

(Andreia coloca-se por trás de Daniel. Agarra-lhe nos braços parando-o com brusquidão.)

Tens de te permitir que as duas cores habitem em ti.

DANIEL
E o que achas que tenho tentado fazer?

ANDREIA
Escolher uma delas.

DANIEL
Estou aqui, não estou?

ANDREIA
Estás.

DANIEL
Então…

ANDREIA
Então?... Estás aqui mas dizes que não me sabes em ti. Que não me sabes na tua cabeça e que isso é o mais importante.

Thursday, April 23, 2009

London

Quando regressei de Londres, comecei a escrever este texto:

Where to start? I really don’t know where to start…
I write in English because I feel it in English. It’s strange when you get to a city and you feel like you’ve never left it. I really do feel like these ten years meant nothing. I felt it like I had just left and was coming home from holidays. And it’s amazing how this comeback has touched me in so many different ways.
It was great having you guys with me. It was like we were all living there. I suppose our lives are all connected, you know? And more than ever I truly do believe that one day we’ll all share the same city. Maybe not tomorrow, maybe not in a year time, but someday. ‘Case we are bound to be.
“Technicolor” acquired a new meaning to me. I’ve written dozens of times how I feel about literature and soundtracks. I just never imagined that I could feel the same thing with paintings. Franz Kline in his “Meryon” has painted the story I’m writing. I actually imagine bringing it on stage with a scenario that hasn’t got anything else apart from the painting on the back. Everything seems to be about black and white.

Não o terminei e não o vou terminar. Porque é uma história sem fim. Londres é uma história sem fim. Obrigado pela casa, obrigado pela companhia, obrigado pelas visitas guiadas. E obrigado pela oferta de tudo isto para um futuro próximo. Sabem que vou aceitar, não sabem? ;)

Tuesday, April 21, 2009

Haverá salvação?

Alguém me explica o quão desviado da normalidade posso eu ser para juntar na mesma frase o Sobrenatural, o Big Brother e uma Patologia?

Olhou em volta. Em busca de algo. Um fantasma, talvez. Uma câmara escondida. A loucura. Não acreditava em coincidências! (in Technicolor)

Se calhar a parte mais grave ainda é estas serem as minhas três hipóteses para a explicação da não existência de coincidências...

...

O que fazer quando não conseguimos fazer o barco andar para a frente e os remos estão quase a partir?

Sunday, April 12, 2009

Technicolor III

Aqui há uns anos pensei em estudar psicologia. Não estudei. Mas o destino encarregou-se de vincar bem vincadinho na minha vida este meu desejo. Hei-de conviver com a dita cuja até ao resto da santa vidinha.

E porque é que me lembrei disto? Porque apesar de todo o contacto que tenho e do pouco que sei, ainda me surpreendo com a forma como a nossa mente actua. Isto tudo porque a imaginação parece não fazer mais do que ir buscar aos confins da nossa memória as experiências que vivemos ou queríamos ter vivido. E é um momento estranho aquele em que nos apercebermos que nos estamos a (d)escrever.

Ah, eu ali atrás disse que havia mais duas músicas que tinham o seu lugar na banda sonora desta história. Errata: já existe toda uma playlist no meu iPod. Mas o seu, a seu tempo.

Wednesday, April 08, 2009

Technicolor II

De tanto vos ouvir cantar, foi-se entranhando em mim. Duma forma estranha, devo dizer. Até porque o original é (quase) sempre melhor que a cópia. E o meu original é o vosso. Ouvi-la na voz da Ani DiFranco é, portanto, estranho.

Estanho é, sem dúvida, a palavra dominante neste pequeno texto. Porque não sei bem como é que isto aconteceu. Não sei bem como é que coloquei a música em repetição e escrevi ao som dela. Não sei bem como é que as palavras acabaram a fazer parte do próprio texto, dando-lhe também vida e levando-o para novos caminhos. Há muito tempo que não incorporava assumidamente nenhuma música na minha escrita.

A banda sonora do Technicolor é composta por três músicas. A primeira, como parece evidente, a You Had Time da Ani DiFranco. As restantes ficam para uma próxima oportunidade.

Technicolor I

Nas noites de insónias vestia uma gabardina cinzenta, uma camisa branca e umas calças pretas. Invariavelmente, fosse Inverno ou Verão. As noites eram sempre frias em Londres, nada semelhantes às da sua terra. Saía de casa para ir passear. Sentir o vento na cara. A noite a entranhar-se-lhe na pele, o escuro a condensar-lhe no corpo. Como uma camada invisível que o protegia da dor que a luz provoca nos olhos claros, nos seus olhos azuis. Regressado a casa, despia o casaco em cima duma das cadeiras da sala. Dirigia-se ao quarto e retirava da gaveta da mesinha de cabeceira a cassete já gasta, já antiga. Guardava-a ali para a sentir mais perto. Na esperança de que fosse possível à banda electromagnética emitir um qualquer tipo de vibração nocturna capaz de lhe imprimir o seu conteúdo na mente. De lhe mostrar o último Acto sem que para tal tivesse de o ver. Nunca conseguira ir além da primeira frase do terceiro e último Acto. Nas noites de insónias, quando regressava a casa coberto por aquela película que o protegia do sol, quando regressava a casa esperançoso de estar protegido de tudo o que o magoava. Nesses dias ia buscar a cassete, aquela gravação ainda a preto e branco, já gasta, à gaveta da mesinha de cabeceira. Colocava-a no vídeo. Sentava-se no sofá. Recitava durante sensivelmente uma hora e meia os dois primeiros actos em conjunto com os actores. Via pela enésima vez os mesmos movimentos. Todos. Via, por fim, Daniel a chegar a casa. A mesma casa onde se passava sempre, única e exclusivamente, a acção daquela história. A gabardina a ser gentilmente colocada com a mão direita na cadeira mais próxima da entrada de cena. O olhar curioso, amedrontado da personagem ao não encontrar a mulher na sala. O barulho da sola dos sapatos na madeira do teatro enquanto percorre o espaço que separa a sala da outra divisão daquela casa improvisada, do quarto. O som da música a fazer-se ouvir. Inconscientemente, começava de imediato a cantarolar a música “How can I go home with nothing to say? I know you’re going to look at me that way.” Sentia as primeiras lágrimas a condensarem-se-lhe nos olhos à medida que a música começava a tocar, que começava também a soltar aquelas palavras. Enquanto ficava cada vez mais estático a observar o olhar do actor a transformar-se à medida que se vai deixando perder nas emoções que afloram em Daniel ao se deparar perante aquele quadro a forrar o espelho antigo. E a primeira palavra.

DANIEL
Vens?

As lágrimas já completamente formadas na sua vista a ameaçarem cair. A começarem a cair ao som da resposta dela.

ANDREIA
Talvez...

A mão fazia-se velozmente ao comando do vídeo naquele momento. Stop! Sempre naquele preciso momento. Stop!

Monday, April 06, 2009

A Verdade (segundo a Cris)

Parece que está novamente tudo a acontecer ao mesmo tempo e a minha cabeça não sabe para que lado se voltar. E desta vez não posso mandar tudo ao ar e fugir em direcção a um infinito mais agradável.

Por isso, em grande parte por isso, deixo-me navegar mais nas palavras dos outros do que nas minhas. Por isso, em grande parte por isso, tomo a liberdade de recomendar uma navegação até aqui.

E no meio disto tudo, quero, tenho de... Preciso loucamente de navegar por outras palavras. Aquelas que são originadas numa resposta a ainda outras palavras, aquelas que não nascem apenas de nós, mas do nosso contacto com os outros: "O cinzento tem o encanto das entrelinhas, o nervoso da dúvida e a beleza da sedução!"

Preciso desesperadamente de te escrever, de te vomitar, de me render novamente ao processo doloroso que é retirar algo de dentro de nós e deixar que isso se materialize numa qualquer realidade. Preciso de te acabar e não consigo encontrar nem o espaço, nem o tempo, nem a disponibibilidade mental para fugir para dentro de ti. Sentir-te em mim não me chega. Tenho de te tornar real e de me sentir em ti.

Friday, March 20, 2009

...

Acho que começo a gostar mesmo disto de escrever para mim e duma forma mais "organizada". É estranho. Mas sabe-me bem. 

Talvez por isso o blog ande mais abandonado às trivialidades, às recordações, às músicas, às palavras de outros e às palavras distantes. Mas a resolução de início de ano era mesmo essa.

Depois d'"A Parede de Vidro", que já foi carinhosamente (ou jocosamente, talvez seja este o melhor termo) apelidado de pornográfico, apeteceu-me continuar. Se o título naquele caso surgiu já depois de tudo escrito, acabei de ter uma epifania sobre o próximo qualquer coisa. Um verdadeiro contra-senso, daqueles que eu gosto, daqueles que fazem com que tudo possa ser diferente ou ter uma outra interpretação. "Technicolor". Chama-se "Technicolor".